A desinformação de gênero constitui um desdobramento da desordem informacional e articula-se diretamente com a violência de gênero, a misoginia e o antifeminismo. Trata-se de um fenômeno que produz impactos significativos, como o enfraquecimento da democracia e a intensificação de abusos, assédios e discursos de ódio direcionados às mulheres e aos movimentos feministas (Di Meco, 2023). Nesse contexto, esta pesquisa, de natureza exploratória, problematiza o universo da chamada machosfera e analisa os processos de monetização da misoginia no ambiente digital. A investigação parte da seguinte questão: em que medida grupos masculinistas têm se constituído como ameaça às mulheres, especialmente ao movimento feminista, e de que forma a desinformação de gênero contribui para o avanço da misoginia? A hipótese central sustenta que os regimes de desinformação se alimentam de narrativas de gênero propagadas por esses grupos, gerando lucro tanto para os agentes da machosfera quanto para as plataformas digitais que hospedam e monetizam tais conteúdos. Como marco teórico, dialoga-se com autoras e autores que fundamentam as discussões sobre gênero, feminismo e desinformação, tais como Judith Butler (1988), Monique Wittig (1992), Oyewumi (2021), Di Meco (2023) e Santini et al. (2024). Parte-se da concepção de gênero como construção social e performativa, historicamente situada e marcada por uma perspectiva ocidental heteronormativa que estrutura relações de poder. A desinformação, incluindo sua dimensão de gênero, é compreendida como elemento constitutivo dos regimes de informação ou de desinformação, entendidos como o conjunto de normas, práticas e disputas que regulam a circulação informacional em contextos atravessados por relações de poder. Segundo Santini et al. (2024), a desinformação de gênero corresponde a narrativas que atacam ou deslegitimam indivíduos com base em seu gênero, reforçando estereótipos e aprofundando desigualdades estruturais. Na contemporaneidade, tais regimes operam em consonância com os interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia, cuja lógica de monetização favorece conteúdos de alto engajamento, ainda que baseados em discursos misóginos. Esse cenário impulsiona a expansão da machosfera, hoje presente em plataformas como YouTube, Instagram, Facebook, Reddit e Telegram. Nesse ambiente, proliferam influenciadores, coaches e comunidades que difundem discursos antifeministas sob a aparência de aconselhamento sobre empreendedorismo, relacionamentos, saúde física e mental e desenvolvimento pessoal (Santini et al., 2024; Lott; Murumaa-Mengel, 2025). A vitimização do homem heterossexual, branco e cisgênero constitui eixo central dessas narrativas, que responsabilizam o feminismo pelas transformações nos papéis de gênero. Consolida-se, assim, um mercado da misoginia sustentado por assinaturas, doações, cursos, mentorias e publicidade, do qual também participam financeiramente as plataformas digitais (Santini et al., 2024). O público-alvo são majoritariamente homens jovens, frequentemente captados por discursos conservadores e neoliberais associados à extrema direita. Como consequência, observa-se o agravamento da violência simbólica e material contra mulheres, especialmente aquelas com atuação política progressista. O enfrentamento desse fenômeno requer ações articuladas, como a promoção de conteúdos educativos voltados à igualdade de gênero, o aprimoramento das políticas de moderação e monetização, maior transparência algorítmica, incentivo a espaços não tóxicos de debate sobre masculinidades e investimento em pesquisas e tecnologias que subsidiem políticas públicas eficazes (Santini et al., 2024).
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)